Mercosul europeu

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Antonio S. Silva

Os mercados brasileiros, o agronegócio e veículos midiáticos reproduziram a felicidade que os países centrais e o governo brasileiro sentiram após negociação política entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e Comunidade Europeia (UE). Com pressão das nações de economia hegemônica, ainda que conflitos aparentes de discurso em defesa do meio ambiente, concretizaram com os governos regionais a abertura de mercado para importações de produtos industriais dos grandes centros comerciais. Como resultado, a América Latina ganha a condição de comercializar matérias primas para os consumidores internacionais e importar produtos industrializados, gerando mais precarização do trabalho no Brasil e região.

Importante observar que durante o governo de Michel Temer e Bolsonaro ocorreram disputas fortes no campo de batalha com atores contra e favoráveis ao neoliberalismo, a abertura e dependência comercial regional, envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. A Venezuela, por questões ideológicas, como avaliada pelo grupo da chamada nova política, está fora das decisões de Bolsonaro e Macri como líderes definidos, talvez externamente, para o comando do bloco latino-americano.

No entanto, as decisões tomadas nas reuniões do G20, no Japão, e Bruxelas, capital da Comunidade Europeia, nestes dias, ainda devem passar pelos parlamentos dos países em negociação econômica. Logo, com uma análise mais profunda se observa que o processo político regional possui interesses e participações externas evidentes e previsíveis, cujo objetivo é explorar os consumidores latino-americanos, com manutenção de economias na dependência dos mercados externos. Um debate que se arrasta por décadas, registrado nos livros de história do Brasil. A decisão, enfim, culmina com a política em ascensão no mundo, com embarcamento do Brasil, como a maior e mais importante economia da região.

Na negociação está posto que o volume de importação da União Europeia para a América Latina é maior do que a exportação de cá para lá, na ordem de R$ 10,7 bilhões de déficit. “As exportações do quarteto sul-americano para os 28 países do bloco europeu totalizaram € 42,6 bilhões (R$ 186 bilhões) em 2018. No outro sentido, a UE vendeu o equivalente a € 45 bilhões (R$ 196,7 bilhões)”, destaca o jornal Folha de S. Paulo. Importante pontuar que se trata de números referentes ao ano passado com sua legislação, dita protecionista do mercado regional.

As decisões tomadas por Bolsonaro e Macri, resume as preocupações de mudanças políticas regionais, que poderiam, a médio prazo mudar o cenário, com perda de popularidade do presidente brasileiro e, como se mostra, a queda do “macrismo” no comando da Argentina. Como reflexo das porteiras abertas para o mercado externo é prejudicial para os países da região, evidencia-se como exemplo a própria política econômica argentina, com inflação nas alturas para uma população nas ruas constantemente, defendendo o Estado do bem-estar social. No Chile neoliberal de Sebastián Piñera, como já anunciado em diversos meios noticiosos, não consegue dar condições aos idosos para uma vida estável, cujas aposentadorias não atingem o salário mínimo do país.

Finalmente, a pressão dos europeus para um Brasil defensor do meio ambiente é apenas prestidigitação, uma espécie de mágica, para esconder o braço que explora, sem cair na impopularidade de ataques à natureza, sobretudo, de um país que tem partes substanciais da Amazônia. O que está em jogo é o mercado, caro leitor.

Antonio S. Silva é professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia (UFMT/CUA). Doutor pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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