Licença para uma reflexão pessoal

image_pdfGerar PDFimage_printImprimir

Annelyse Cândido

Descendentes da Casa Grande voltarão a ocupar o Estado e fazê-lo funcionar em benefício próprio

Estudei História do Brasil nos bancos de uma escola pública da periferia de Cuiabá, que foi onde me formei no ensino fundamental. Depois tive o êxito de estudar na ETF-MT, hoje, IFMT. Oportunidade essa, que tive acesso a um olhar mais humanizado e crítico para a história do meu país.

Cursei Serviço Social na UFMT, pós-graduação, algumas disciplinas no Mestrado e muita formação continuada.

Nesse meu caminho, NUNCA, digo, NUNCA fui a favor do golpe, da intervenção militar para deliberação do vazamento seletivo de informações, da violência, da opressão aos movimentos sociais, do ataque à cara e dolorida democracia desse país.

Vejo com muito pesar tudo que estamos passando e esse momento político do Brasil.

Temos pautas sociais tão importantes e que assolam milhares de brasileiros, como as inúmeras questões que afetam milhares de crianças e adolescentes, mas que hoje estão esquecidas/isoladas em nome de um espúrio processo de golpe de Estado que estamos vivendo. Em outras palavras, os descendentes da Casa Grande estão de volta.

Buscar o impedimento da presidenta é o último capítulo desta batalha para chegar ao Estado anterior. Esses voltariam a ocupar o Estado e fazê-lo funcionar em benefício próprio, excluídas as maiorias populares.

A aliança deles com a grande mídia, formando um bloco histórico bem articulado, conseguiu conquistar para a sua causa muitos dos estratos médios, progressistas nas profissões mais conservadoras na política.

Sakamoto dizia bem: o Brasil é um rapaz que nasce, negro e pobre, no extremo da periferia e, apesar de todas as probabilidades contrárias, chega à fase adulta. É um vendedor ambulante que sai de casa às 4h30 todos os dias e só volta tarde da noite, mas ainda arranja tempo para ser pai e mãe.

É a jovem que, mesmo assediada no supermercado onde trabalha, não tem medo de organizar os colegas por melhores condições.

É a travesti que segue de cabeça erguida na rua, sendo alvo do preconceito de “homens e mulheres de bem””, sabendo que não consegue emprego simplesmente por ser quem é.

É um adolescente criminalizado e rotulado como “menor agressor e delinquente” que cumpre o ato infracional em condições indignas/sub-humanas e que não encontra no atual Governo prioridade absoluta para reformar e construir novas unidades socioeducativas e humanizadas em nosso Estado.

É uma criança que vende doces na rua, para auxiliar na renda familiar, e leva um “soco no meio da cara”, uma agressão, tendo como fator causador o trabalho infantil. E ainda acham no discurso diário e comum que “é melhor trabalhar que roubar. Mente vazia oficina do diabo”.

É a menina explorada sexualmente em nossos municípios. É o menino que vem a óbito pelas violências a qual os adolescentes estão submetidos diariamente. São nossas crianças e adolescentes marginalizados.

O Brasil é resistência. Não aquela cantada em prosas e versos, da resistência dos ricos e poderosos, que com seus grandes nomes deixaram grandes feitos que podem ser lidos em grandes livros ou vistos diariamente na TV.

Mas a resistência solitária e silenciosa de milhões de anônimos que não possuem cidadania plena, mas tocam a vida mesmo assim.

Se houve melhora na maneira como esse país trata os mais humildes, isso se deve à sua resistência, ou seja, sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos “grandes líderes”” naufragam em tempos de chuva ou desidratam em tempos de seca.

Sob a justificativa da “governabilidade””, o governo federal fez alianças espúrias, apoiando forças econômicas e políticas que eram contrárias aos interesses populares, ignorando o suporte oferecido por esses mesmos movimentos para um mandato que significasse uma mudança de paradigma.

Se um país é a soma das histórias de sua gente, gente que apanha da vida e se mantém de pé, então esse país vale a pena. A consciência das classes populares ainda não está despertada.

Sinto um pesar muito grande e doloroso pela História que estou vendo diante dos meus olhos. Espero e luto por dias de superação.

Dias em que veremos os temas da infância e adolescência não em pauta para oprimir ou com o orçamento/financeiro reduzido a nada, mas para avançar, progredir, garantir e fazer com que a prioridade absoluta não seja uma letra morta no jovem Estatuto da Criança e Adolescente.

Espero e luto diariamente. Porque essa é a esperança e fôlego de nosso amanhã diário. Respeito ao voto dos brasileiros e brasileiras. Respeito à Democracia do nosso País.

Custe o que custar? Já vimos isso em uma história não muito distante nos bancos da escola da vida.

ANNELYSE CRISTINE CÂNDIDO SANTOSé assistente sSocial, especialista em Política Social, conselheira do Conselho Regional do Serviço Social (CRESS – MT), presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente, analista assistente social do Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Notícias relacionadas mais recentes

A corrupção paga por nó Hélcio Corrêa O que se faz aqui contra o investidor não pode ser estendido além da fronteira. Foi o que Dilma Rousseff pagou para ver No Brasil, tem ...
Pela retomada da esperança Fábio Garcia O atual Governo conduziu o País à maior crise de sua história, de ordem ética, moral, política e econômica O Brasil vive um dos mais imp...
Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *